sexta-feira, 6 de novembro de 2026
Brasil

Trajetórias acadêmicas marcam entrada de dois indígenas no curso de diplomatas do Itamaraty

Marcelo Kariri Menezes e Idjahure Terena tomaram posse no Palácio Itamaraty e integrarão turma que começa em 2026; grupo tem cerca de 60 alunos.
Trajetórias acadêmicas marcam entrada de dois indígenas no curso de diplomatas do Itamaraty
Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos

Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, tomaram posse como diplomatas no Palácio Itamaraty, em Brasília. Eles são os primeiros representantes de povos originários a ingressar no curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores.

Os dois participarão da turma selecionada pelo Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), com início previsto para 2026 e conclusão em 2028. O grupo tem cerca de 60 alunos e reúne, além dos dois indígenas, 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência e uma pessoa quilombola.

Composição da turma

Segundo as informações divulgadas, quase metade dos ingressantes pertence a grupos sub-representados na diplomacia brasileira. A turma também apresenta a maior participação proporcional feminina da história do curso, com mulheres correspondendo a 45% dos alunos.

O concurso contou com ações afirmativas relacionadas a uma política prevista no Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e a uma reivindicação de movimentos de defesa dos direitos humanos. Entre as medidas citadas pelo Ministério das Relações Exteriores está a ampliação do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a apoiar, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.

Durante a cerimônia, a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, afirmou que o corpo diplomático deve refletir a diversidade da população brasileira. Ela classificou a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas na instituição como um ato de resistência diante de ameaças à democracia e de desafios relacionados a direitos reconhecidos na Constituição de 1988.

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, declarou que a posse representa a materialização do conceito de “Aldear o Estado”, associado à inserção de lideranças indígenas em espaços técnicos capazes de influenciar decisões dentro e fora do país. Para ele, o momento tem significado individual, coletivo e nacional.

Formação e experiências

Natural de Campina Grande, na Paraíba, Marcelo Kariri Menezes é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande e tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Entre 2021 e 2025, trabalhou como engenheiro de suporte a produtos e também é autor de um livro infantojuvenil.

Na cerimônia, Marcelo relatou que havia, no ambiente em que sua família vivia, a ideia de que pessoas como ele enlouqueceriam se estudassem e deveriam se dedicar apenas a trabalhos braçais. Segundo o diplomata, a mãe identificou na educação uma possibilidade de mudança.

Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e mestre na mesma área pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também é bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Idjahure afirmou que ingressar no Itamaraty significa reconhecer uma história de exclusão e tutela dos povos indígenas e buscar um futuro em que a diversidade étnica esteja integrada ao Estado. Ele é filho do artista Macsuara Kadiwéu, identificado na divulgação como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.

Convidado de honra da solenidade, o escritor indígena Ailton Krenak também comentou a presença de familiares e crianças indígenas no evento. Para ele, essa participação rompe com a frieza institucional e representa a possibilidade de construir novos sentidos diante das dificuldades.

Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.

Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos